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sexta-feira, 3 de setembro de 2010

O Quarto - Contos de Um Contador Idiota

Ah, o meu quarto.
Passo tanto tempo de minha vida nele. O tempo que for preciso. Essas quatro paredes brancas e acolchoadas já se tornaram parte de mim. Eu as tenho como confidentes. E elas são ótimas para exercer essa função: só ouvem, nunca falam.
Ao contrário delas, minha irmã fala demais. Ela é médica, e vive sempre falando em termos cientificos, coisas que eu entendo bem pouco. Sempre conversando comigo como se eu precisasse da ajuda dela, ela diz que um dia eu iria sair desse quarto, fala como se eu quisesse isso, fala como se eu precisasse sair da minha fortaleza de gelo.
Além das minhas confidentes não existem muitas coisas por aqui. Só minha cama é o bastante pra me deixar preso aqui. Não há nada melhor do que dormir profundamente e sonhar com cavalos marinhos coloridos de verde e azul voando pelo céu amarelo. Sonhar com a batalha dos dois reinos celestes. A Lua com seu exercito de constelações, levando a escuridão e a melancolia por onde passasse. A rainha do crepúsculo quer tomar o reino do Sol. E o domínio do Rei da luz, da vida e da energia vital apenas se defenderia. As nuvens tomariam formas de muralhas intransponíveis e transformariam-se nos mais valentes guerreiros. Hércules, Perseu,Teseu, Aragorn (tá, eu sei que dessa vez eu exagerei :D). Depois de uma longa e dura batalha, a Lua venceria, começando sua ditadura de escuridão. Uma eterna noite. Tal como o meu quarto.
Se torna cada vez mais dificil saber se é dia ou noite por aqui. E o arquiteto que projetou minha batcaverna não ajudou muito. Sem janelas. De nenhum tipo. Nem persianas. Nenhuma entrada ou saída. Apenas as portas. Uma que é a de entrada para o banheiro. Ou saída, se você já estiver lá dentro. E a outra é a porta que eu tanto odeio abrir. E que eu tanto odeio que abram.
Logo depois de pensar isso, aí está, minha irmã abriu-a. Ela me trouxe balas. Não gosto dessas balas. Elas não são doces. Aliás, elas não tem gosto. São ruins, e a minha irmã nunca me deixa salivar, vai sempre me enfiando um copo d’água abaixo.
Ela já começou a falar. Mas não comigo. Minha mãe veio! É raro que minha mãe venha aqui. Antes ela vinha todos os dias, pra me acordar. Eu não gostava na época, mas agora eu sinto falta.
Vou fingir que estou dormindo, acho que ela não gosta mais de mim. Ela me abraçou, eu não quis, desviei e gritei. Ela me disse que estava tudo bem, que ela não ia me fazer mal. Eu grito dizendo que ela não é minha mãe. Ela se afasta, minha irmã se aproxima e chama dois homens.
Conheço esses dois, eles nunca me deixam fazer o que eu quero. Eu me desespero e começo a gritar e a bater neles. Eles pegam uma camisa, eu detesto aquela camisa, ela é grande demais para os meus braços. Eu tento tirar a camisa, eles me seguram e colocam-na contra minha vontade, como sempre.
Minha irmã me enfia uma agulha no braço, mesmo por cima da camisa. A última coisa que eu lembro é do sono que eu senti logo depois.
Agora eu presencio a batalha celeste. A Lua está ganhando.

Y.F.

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